Cecafé: Gargalos na infraestrutura portuária são responsáveis por prejuízos milionários e ameaçam competitividade do agro

O esgotamento da infraestrutura portuária brasileira já provoca prejuízos significativos às exportações do agronegócio, setor responsável por 49% da balança comercial do país. A falta de capacidade adequada para cargas conteinerizadas, os atrasos recorrentes de navios por conta da falta de capacidade e a ausência de planejamento logístico apoiado em dados têm elevado o chamado Custo Brasil e reduzido a eficiência do comércio exterior. É o que aponta o diretor técnico do Cecafé, Eduardo Heron. Em entrevista ao Porto Livre Brasil, o diretor detalha como esses gargalos, principalmente no Porto de Santos, maior complexo portuário da América do Sul, prejudicam a exportação de café e outras commodities do agronegócio.
Heron também afirma que a inexistência de indicadores logísticos, a falta de investimentos proporcionais ao crescimento da demanda e a necessidade de maior diálogo entre os setores público e privado são elementos importantes da lista de desafios a serem solucionados pelo país. O diretor acrescenta que, apesar dos recordes de movimentação, os custos adicionais com detentions, pré-stacking e armazenagem recaem diretamente sobre os exportadores, comprometendo a competitividade do Brasil no mercado internacional.
Como o senhor avalia o papel dos portos brasileiros, especialmente em Santos, no escoamento das cargas do agronegócio em contêineres? Quais os principais desafios enfrentados por esses exportadores hoje?
Considerando que mais de 80% do comércio internacional de mercadorias é realizado por meio do transporte marítimo, segundo relatório da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), e que o agronegócio brasileiro corresponde a 49% das exportações na balança comercial nacional, os portos têm papel preponderante no escoamento da safra e na geração de divisas, renda e emprego ao país.
Entretanto, apesar de um agronegócio pujante, competitivo e do qual somos líderes nas exportações mundiais, como soja, carne bovina, café, celulose, suco de laranja, açúcar e algodão, o Brasil ocupa a 24ª colocação no ranking global de exportadores, representando cerca de 1,4% do total exportado no mundo, muito por conta do esgotamento da infraestrutura logística, principalmente portuária.
No que diz respeito ao maior porto da América do Sul, Santos precisa ampliar a oferta de pátio e berço para as cargas conteinerizadas e embarcações, além de uma nova alça de acesso à área primária, aprofundamento do calado e até uma nova via de descida de caminhões à Baixada Santista, bem como estimular, por meio de políticas públicas, a movimentação de carga por outros modais, como o ferroviário.
Apesar dos recordes consecutivos do Porto de Santos, o esgotamento da infraestrutura do porto vem causando prejuízos aos exportadores, com o adicional de elevadas despesas logísticas como taxas de detentions, pré-stackings e armazenagens adicionais, porque as cargas chegam para embarcar e são impedidas de entrar no terminal, por conta dos atrasos dos navios e da própria lotação dos pátios. Os recordes quebrados por Santos, infelizmente, estão sendo feitos a um custo muito elevado para as cargas.
No seu ponto de vista, quais são as maiores dificuldades logísticas que o setor do café enfrenta para exportação por contêineres? Existem problemas específicos relacionados à infraestrutura portuária?
Além das carências relacionadas na minha resposta anterior, nota-se também a ausência de indicadores logísticos e portuários para se apurar, com exatidão, a real demanda das cargas no que se refere à infraestrutura.
O setor cafeeiro, por exemplo, já acumula prejuízos logísticos de R$107 milhões, no período de junho de 2024 a outubro de 2025, com o pagamento de detentions, pré-stacking e armazenagens adicionais.
Nota-se a recorrência de elevados índices de atrasos de navios, que levam à consequente lotação de pátios e ao impedimento no recebimento de novos contêineres de café para embarque pelos terminais. Entretanto, por conta da ausência de indicadores logísticos e portuários, as autoridades públicas só enxergam os recordes e não levam em consideração os volumes que deixaram de ser embarcados, como é o caso do café, que, até o mês de outubro de 2025, deixou nos parado nos portos cerca de 2.065 contêineres.
A falta de investimentos em modernização e ampliação de terminais portuários têm afetado a competitividade das exportações do agro? Quais melhorias você acredita mais urgentes?
Sem dúvida, há um grande descompasso entre o aumento na movimentação de carga e a necessidade de investimentos, modernização e ampliação da oferta da capacidade de pátio e berço, o que resulta no aumento do chamado Custo Brasil e na menor competitividade do país.
Os investimentos em infraestrutura não acompanharam, na mesma proporção, o aumento na movimentação de contêineres e, por esse motivo, os exportadores seguem acumulando perdas em custos e deixando de atender mercados importantes mundo afora.
Destacamos a importância de criar indicadores logísticos e portuários para se avaliar os problemas com precisão e realidade, de maneira que a oferta de capacidade ocorra antes da demanda, evitando prejuízos aos exportadores, bem como incluir as cargas, em seus diversos setores, no planejamento logístico nacional.

Como a parceria entre operadores portuários e exportadores pode ser mais eficiente para acelerar o fluxo de mercadorias como o café?
Ter os diversos elos do comércio exterior atuando em conjunto na busca pela modernização regulatória, tecnologia, aprimoramento e eficiência logística é, sem dúvida, muito importante para as cargas e operadores portuários.
Mas a falta de diálogo permanente entre os diversos lados do setor público e privado torna o desafio ainda maior e mais difícil o planejamento logístico do país.
Quais as vantagens do uso de contêineres no escoamento do café e de outras commodities agropecuárias?
O Brasil segue sendo o líder absoluto na produção e exportação mundial de café. Entretanto, por conta do esgotamento da infraestrutura portuária, vimos o país retroceder a mais de anos e realizar embarques de café em breakbulk (carga fracionada e embarcadas no porão), depositando big bags nos porões dos navios para garantir o abastecimento dos principais mercados consumidores, como Estados Unidos, Europa e Japão.
A exportação de café em contêineres de 20 pés é um facilitador no comércio mundial do produto, por conta da participação de diversos entes do setor privado, como dealers, tradings e torrefadores, permitindo acondicionamento mais adequado do produto.
O que o Cecafé tem feito para ajudar seus associados a otimizar processos e reduzir custos logísticos?
Estamos em constante diálogo com os diversos parceiros do comércio exterior, públicos e privados, compreendendo os desafios e buscando colaboração mútua e novas potencialidades para permitir uma performance mais adequada nas exportações de café.
Recentemente, promovemos uma missão logística aos portos do Rio de Janeiro e de Sepetiba, com empresas exportadoras, na expectativa de avaliar outras possibilidades, incluindo a logística de contêineres até os portos por ferrovias.
Existem entraves regulatórios que dificultam a agilidade do processo portuário no Brasil?
A ausência de indicadores logísticos e portuários cria dificuldades para se avaliar as demandas da carga, como a oferta de capacidade de pátio, berço e diversificação de modais.
Quais tecnologias e inovações podem contribuir para melhorar a eficiência portuária?
A tecnologia é uma grande aliada do comércio exterior e, somada à inteligência artificial, pode oferecer melhor previsibilidade, eficiência e planejamento logísticos para as cargas, com amplo monitoramento da cadeia de exportação.
No setor cafeeiro, por exemplo, já contamos com larga adoção de tecnologia para a formação homogeneizada e automatizada dos lotes de exportação.
Quais são as perspectivas para o futuro das exportações do agronegócio nos nossos portos?
Infelizmente, o cenário atual é caótico e carece de celeridade para que o Brasil não seja ainda mais prejudicado em sua competitividade. Se nada for feito com urgência, os impactos negativos e os prejuízos ao agronegócio brasileiro tendem a se intensificar.
De todo modo, seguiremos trabalhando em parceria com entes públicos e privados na expectativa de buscar melhor eficiência e infraestrutura adequada para o escoamento da safra pelos portos.