Especialistas defendem mais integração entre modais para ampliar a eficiência no setor portuário
O atual Plano Nacional de Logística PNL 2050 ganhou espaço no debate no segundo dia do Fórum Nacional Brasil Export 2026. O evento reúne representantes do Governo Federal e da iniciativa privada das áreas logística e portuária para encontrar soluções para o setor de exportação

Amplo diagnóstico que apontou gargalos na infraestrutura nacional, no financiamento e na regulação do setor portuário, e defende ampliação do fomento a ferrovias, hidrovias e navegação de cabotagem, foi o ponto forte de um dos painéis do segundo dia do Fórum Brasil Export 2026, realizado na quarta-feira, 7 de outubro, em Brasília (DF).
Em debate durante o painel, o Plano Nacional de Logística – PNL 2050 foi mencionado por especialistas do setor como fundamental para viabilizar a integração entre ferrovias, hidrovias, rodovias e a navegação de cabotagem. Os participantes do painel defendem que o PNL esteja entre os principais desafios do novo governo em 2027.
Anunciado pelo Ministério dos Transportes em 12 de agosto deste ano, o PNL 2050 é visto pelo Ministério da Casa Civil como uma perspectiva de planejamento de longo prazo da infraestrutura de transportes brasileira, a fim de identificar quais necessidades do setor devem orientar as prioridades do país para as próximas décadas.
O PNL surgiu para ampliar a intermodalidade e melhorar a mobilidade de pessoas e o escoamento de cargas tanto para o mercado interno quanto para exportação. Nesse sentido, o PNL deve identificar as carências e oportunidades da rede nacional de transporte de cargas e passageiros e estabelecer uma referência de longo prazo para que a infraestrutura de transportes acompanhe as diretrizes econômicas e sociais do Brasil.
Durante o debate no Fórum Brasil Export 2026, promovido e organizado pelo portal BE News, os painelistas avaliaram que o planejamento de longo prazo precisa ser acompanhado de investimentos, financiamentos e ações capazes de conectar os diferentes modais para ampliar a participação de modais ainda pouco utilizados na matriz brasileira.
O presidente da Infra S.A., Jorge Bastos, declarou que a navegação de cabotagem e as hidrovias poderiam ser mais exploradas no Brasil. “Nós temos uma costa enorme e a nossa cabotagem não funciona como poderia. Temos que pensar na cabotagem e ver o que falta para fazer essa modalidade avançar”, frisou. Em sua avaliação, idêntico desafio se impõe à malha ferroviária.
Segundo sua perspectiva, deve haver a expansão da rede ferroviária e a diversificação das cargas transportadas pelos trilhos. “Temos que tirar um pouco da ferrovia essa característica de transportar só grãos e minérios para transportar também outros tipos de cargas. É impossível andar 2 mil ou 3 mil quilômetros com transporte rodoviário. Temos que tentar mudar esse tipo de modal”, defendeu Bastos.
Segundo sua avaliação, novas fontes de financiamento podem viabilizar o aumento no transporte ferroviário e, para isso, torna-se essencial o direcionamento de recursos do próprio setor para investimentos em infraestrutura. “O modal ferroviário depende muito de investimento. Temos que entender que uma coisa é gasto e outra é investimento em infraestrutura”, explicou, esclarecendo que a conexão das ferrovias com os portos e as hidrovias será fundamental para o avanço da multimodalidade no Brasil.
Atuação coordenada entre os entes federativos, os empresários e o setor de regulação
No decorrer do painel, Marcella Cunha, diretora-presidente da Associação Brasileira de Operadores Logísticos (Abol), também defendeu uma atuação coordenada entre a União, os estados, os municípios, a iniciativa privada e as agências reguladoras. Estudos da Abol apontam que as ferrovias e hidrovias estão entre os modais que demandam maior atenção, com gargalos que envolvem infraestrutura, oferta de rotas e integração entre sistemas. “A multimodalidade não é abstrata, ela existe. Hoje, 31% da nossa base utiliza multimodalidade. Quando olhamos para os operadores de grande porte, 44% conseguem oferecer isso”, declarou.
Marcela ressaltou que as operações que combinam rodovias, ferrovias e navegação de cabotagem enfrentam problemas que precisam ser solucionados de forma conjunta. “A gente tem que atacar todos esses problemas: infraestrutura, integração de sistemas e regulação”, completou.
Danilo Imbimbo, coordenador-geral de Política de Planejamento do Ministério dos Transportes, ressaltou que a elaboração do PNL 2050 teve a participação do setor privado e da sociedade em seis consultas públicas, em um processo que começou em 2024 e incorporou contribuições ao longo de cerca de dois anos e meio.
Imbimbo destacou que a conclusão deste PNL será seguida pela publicação dos planos setoriais, prevista até o fim deste ano. Já para 2027, deverão ser elaborados os planos gerais, que vão conectar as diretrizes de longo prazo ao Plano Plurianual (PPA) e ao próximo ciclo orçamentário. “Aí, vamos começar a ver efetivamente que obras que estão no cenário-meta serão prioridades das próximas gestões nos próximos quatro anos”, afirmou.
O coordenador lembrou também que o PNL irá passar por revisões. Nessa etapa, segundo ele, o acompanhamento da sociedade será essencial para garantir a execução das diretrizes. “A gente espera que o plano de fato vá para frente e seja um plano de Estado. É importante todo mundo ter o plano embaixo do braço e cobrar que aquilo que foi construído conjuntamente saia do papel”, disse ele.
O desenho original do PNL 2050 antevê um cenário brasileiro de crescente expansão da infraestrutura nacional, sendo que, dos 31 eixos prioritários mencionados no plano, 12 são rodoviários; oito, ferroviários; quatro, aquaviários; além de sete intermodais.