A miragem de 2025: por que o alívio em Santos engana, e o relógio corre contra o porto

Fonte: Diário Carioca

O tempo de espera caiu, os recordes se sucedem e há quem comemore. Os números contam outra história: um porto saturado recebendo mais navios do que nunca, perdendo o transbordo para os vizinhos e correndo para um esgotamento que nem o TECON 10 vai evitar.

20 de agosto de 2026

Quem olha apenas para um indicador pode se apaixonar pelo retrato errado. Em 2025, o tempo médio de espera para atracar no Porto de Santos caiu de 36 para 27 horas, e não faltou quem lesse ali o sinal de que o pior havia passado. Não passou. A queda é real, mas a explicação está longe de ser tranquilizadora — e o quadro que emerge quando se cruzam todos os dados do Estatístico Aquaviário da Antaq é o mais alarmante da história recente do maior porto da América Latina. Santos não está se recuperando. Santos está sendo engolido pelo próprio sucesso.

É uma história que merece ser contada com calma, porque dela depende boa parte da competitividade do comércio exterior brasileiro. Por Santos passam quase 40% das cargas conteinerizadas do país e três em cada quatro sacas de café exportadas. Quando esse porto espirra, a balança comercial inteira fica resfriada. E o diagnóstico, hoje, não é de espirro: é de pneumonia anunciada.

Um porto operando além do projeto

Comecemos pelo óbvio, que a rotina de recordes ajuda a esconder. Em 2025, Santos movimentou 5,19 milhões de TEU, 96% da capacidade que os operadores declaram possuir. Desde 2024, uma leva de novos serviços de longo curso ligando o Brasil à Ásia, operados por CMA CGM, Maersk, Zim, ONE e HMM, como o SEAS 3, lançado em abril de 2025 com onze navios ,em parceria CMA CGM–Maersk, passou a escalar Santos com frequência semanal. O resultado já aparece nos números: em 2025, o porto recebeu cerca de 4.283 atracações de navios de contêiner, o maior contingente da série histórica, 8% acima do ano anterior. Mais navios, mais pressão sobre os mesmos berços especializados.

A falsa boa notícia da espera

É aqui que a leitura desatenta se engana. A espera de 2024, recorde em 36 horas, foi inflada por uma conjunção rara: episódios severos de mau tempo na Ásia, que desorganizaram as cadeias de escalas, e na costa Sul do Brasil, que fecharam o canal santista por mais de 160 horas ao longo do ano, só por nevoeiro. Com os navios chegando fora da janela de atracação, 84% das embarcações atrasaram e a fila explodiu. Em 2025, o clima normalizou, as janelas voltaram a ser cumpridas e a espera recuou para 27 horas. Alívio? Apenas aritmética. O nível atual segue sendo 2,6 vezes a média de 10 horas observada entre 2014 e 2019, e a tendência de longo prazo permanece de alta estatisticamente significativa: quase duas horas a mais de espera por ano desde 2014. Comemorar 2025 é como celebrar a febre que baixou de 40 para 39 graus num paciente cuja temperatura normal é 36,5.

Há ainda um detalhe que a média esconde: a espera não é um custo abstrato. Cada dia de navio parado custa fretamento, combustível e tripulação e, em 2024, a conta de demurrage paga pelos embarcadores brasileiros foi estimada em R$ 775 milhões. É dinheiro que não compra um metro de cais, um guindaste ou um pátio: compra apenas o direito de esperar.

O transbordo está votando com os pés

O sinal mais preocupante, porém, não está na fila, mas sim na carteira de negócios. A consignação média, o volume de TEU que cada navio despeja ou embarca em Santos, estagnou e começou a ceder: de 1.237 TEU por navio em 2021 para 1.213 em 2025. A explicação tem nome e endereço. Desde 2024, os armadores vêm deslocando o transbordo, a carga de maior valor agregado, que chega nos navios-mãe e segue em feeders para outros destinos, para Rio de Janeiro, Rio Grande e Navegantes. Os números dos concorrentes escancaram a migração: o complexo Rio de Janeiro saltou de 636 mil para 1,11 milhão de TEU em dois anos, alta de 75%. Santos recebe mais navios do que nunca, mas desloca o transbordo. Não é falta de demanda, é falta de capacidade para atendê-la.

A conta que o TECON 10 não pagará

Diante disso, a tentação é depositar todas as fichas no TECON Santos 10. O terminal é indispensável e seu leilão, adiado oito vezes desde 2022, precisa acontecer. Mas é preciso encarar a matemática sem anestesia: mesmo com o novo terminal em operação plena a partir de 2034, a demanda, projetada a partir do realizado de 2025, ultrapassa esse teto entre 2042 e 2049, conforme o ritmo de crescimento. Dentro do próprio contrato de 25 anos que está sendo licitado, Santos voltará a precisar de mais um terminal. E isso antes de contabilizar os efeitos da própria saturação: cada ano de fila na barra empurra mais transbordo e mais carga de longo curso para os concorrentes, num círculo vicioso que encolhe a participação de Santos no mercado — já caíram 12 pontos percentuais desde 2010 — e desloca investimentos para outras praças.

Note-se a ironia do desenho atual: os mesmos armadores que disputam palmo a palmo o direito de investir bilhões no novo terminal são os que hoje desviam transbordo de Santos por falta de janela confiável. O mercado está dizendo, ao mesmo tempo, que quer entrar e que não consegue operar. Não há contradição — há escassez. E escassez, em logística, se resolve com capacidade, não com discurso.

Acelerar é a única opção

O quadro, portanto, é este: um porto operando a 96% de sua capacidade operacional, recebendo um fluxo recorde de navios asiáticos, com espera quase três vezes acima do regime normal, perdendo o transbordo para três concorrentes e cuja única expansão relevante em vista não resolve o horizonte contratual. Nenhum desses fatos é opinião; todos estão nas séries oficiais da Antaq e nos anúncios públicos dos próprios armadores e terminais. A conclusão que se impõe não é pessimism, é planejamento. O Brasil precisa licitar o TECON 10 já, destravar os investimentos privados autorizados e represados, acelerar as expansões dos terminais existentes e começar agora a estruturação da próxima área de contêineres da Baixada Santista. Em infraestrutura portuária, quem espera o gargalo aparecer para agir já chegou tarde. Em Santos, o gargalo não só apareceu: está ancorado na barra, esperando há 27 horas para atracar.

A boa notícia, para encerrar, é que o remédio é conhecido e o paciente tem pressa. A DP World acaba de aprovar R$ 1,6 bilhão para ampliar seu terminal em 25% até 2028; a ICTSI investirá R$ 948 milhões no Rio; e há R$ 36,8 bilhões em terminais privados autorizados no país aguardando apenas o destravamento de licenças para sair do papel. O capital existe, a demanda existe e a engenharia existe. O que não pode existir é mais uma década de espera, nem na barra de Santos, nem nas gavetas onde os projetos dormem.

Rodrigo Paiva é diretor da GRAF INFRA CONSULTING, consultoria especializada em infraestrutura portuária e logística. Os dados operacionais citados derivam das séries do Estatístico Aquaviário da Antaq (2010–2025) e do Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental do TECON Santos 10 (Infra S.A./Antaq, Rev02, data-base julho/2024), compilados em relatório técnico da consultoria. As informações de mercado sobre novos serviços, janelas de atracação e rotas de transbordo refletem o acompanhamento setorial da consultoria e fontes públicas referenciadas.

Publicado originalmente no Diário Carioca

Veja mais notícias pela livre concorrência

Logisitica brasil
CE Brasil
Aexa
Frente Parlamentar pelo Brasil Competitivo
Frente Parlamentar de Postos e Aeroportos
Associação Comercial de Santos
Conselho dos Exportadores de Café do Brasil
IBI

Uma iniciativa do

CE Brasil logo