A miragem de 2025: por que o alívio em Santos engana, e o relógio corre contra o porto
O tempo de espera caiu, os recordes se sucedem e há quem comemore. Os números contam outra história: um porto saturado recebendo mais navios do que nunca, perdendo o transbordo para os vizinhos e correndo para um esgotamento que nem o TECON 10 vai evitar.

Quem olha apenas para um indicador pode se apaixonar pelo retrato errado. Em 2025, o tempo médio de espera para atracar no Porto de Santos caiu de 36 para 27 horas, e não faltou quem lesse ali o sinal de que o pior havia passado. Não passou. A queda é real, mas a explicação está longe de ser tranquilizadora — e o quadro que emerge quando se cruzam todos os dados do Estatístico Aquaviário da Antaq é o mais alarmante da história recente do maior porto da América Latina. Santos não está se recuperando. Santos está sendo engolido pelo próprio sucesso.
É uma história que merece ser contada com calma, porque dela depende boa parte da competitividade do comércio exterior brasileiro. Por Santos passam quase 40% das cargas conteinerizadas do país e três em cada quatro sacas de café exportadas. Quando esse porto espirra, a balança comercial inteira fica resfriada. E o diagnóstico, hoje, não é de espirro: é de pneumonia anunciada.
Um porto operando além do projeto
Comecemos pelo óbvio, que a rotina de recordes ajuda a esconder. Em 2025, Santos movimentou 5,19 milhões de TEU, 96% da capacidade que os operadores declaram possuir. Desde 2024, uma leva de novos serviços de longo curso ligando o Brasil à Ásia, operados por CMA CGM, Maersk, Zim, ONE e HMM, como o SEAS 3, lançado em abril de 2025 com onze navios ,em parceria CMA CGM–Maersk, passou a escalar Santos com frequência semanal. O resultado já aparece nos números: em 2025, o porto recebeu cerca de 4.283 atracações de navios de contêiner, o maior contingente da série histórica, 8% acima do ano anterior. Mais navios, mais pressão sobre os mesmos berços especializados.