Infraestrutura de transporte é dever de Estado

Fonte: A Tribuna

Executivo da Abratec afirma que o abandono das grandes obras de infraestrutura freia o crescimento do País e prejudica a eficiência dos portos.

28 de julho de 2026

Caio Morel

Cresce, creio, entre todos nós a sensação de que nosso país está ficando para trás na corrida pelo desenvolvimento, enriquecimento e melhoria da qualidade de vida de nossa sociedade. Esta percepção tem eco nas publicações de diversos articulistas da alea econômica, que relatam o distanciamento do Brasil dos países que avançam na corrida por um crescimento sustentado, fato que é evidenciado nos rankings que comparam nosso país com outras economias em desenvolvimento. A cada nova medição, aparecemos alguns degraus abaixo na escada rumo às posições mais destacadas.

Estamos nos distanciando dos melhores em quesitos como renda, ambiente de negócios, segurança jurídica, inovação, qualidade da educação, produtividade e sim, infraestrutura.

Com relação à infraestrutura, particularmente a de transporte que é o nosso foco, o Brasil vive das grandes obras realizadas até o terceiro quartil do século passado, encerrado nos meados da década de 1970. A BR 116, que corta o país de norte a sul veio em 1933. Já em 1951 foi duplicado o trecho Rio – São Paulo, a famosa Via Dutra. A BR 101, via paralela litorânea foi construída gradativamente entre os anos de 1950 e 1970, culminando com a construção da ponte Rio – Niterói em 1974. A construção de Brasília trouxe a partir de 1959 o primeiro trecho da Belém – Brasília. Todas estas obras de infraestrutura impulsionaram o nosso crescimento em tempos do chamado “milagre econômico”, onde o Brasil, indiscutivelmente avançava na escada da prosperidade. Estas obras foram todas custeadas e construídas pela União, como não poderia deixar de ser. Afinal, cabe ao Estado moderno prover à sociedade fundamentalmente: segurança, educação, e infraestrutura como energia, estradas e saneamento.

A infraestrutura é o suporte material indispensável para o desenvolvimento social e econômico, onde portos e aeroportos têm papel de destaque, principalmente em uma economia exportadora, que depende destas instalações para levar seus produtos aos mercados compradores. O estado atual de nossa infraestrutura de acesso aos nossos portos é lamentável, padecendo há mais de 50 anos da falta de obras de ampliação de seus acessos terrestres, elevando o custo de nossos produtos e dificultando a vida das pessoas que vivem nas cidades portuárias, particularmente na baixada santista e no litoral do estado de Santa Catarina.

Construiu-se em nosso país a noção de que o Estado não tem recursos para obras de infraestrutura e que tais investimentos devem ser realizados pela iniciativa privada. Esta é uma proposta inviável, pois grandes obras de infraestrutura têm “custos afundados”, termo que significa investimentos que não serão recuperados pelo investidor, dada a sua magnitude e a impossibilidade de retorno através da exploração comercial. Ao Estado provedor da infraestrutura, entretanto, o retorno se observa através do cumprimento de sua função social e da arrecadação de impostos advindos do aumento da atividade econômica que a intervenção proporciona.

O país que estará gastando este ano 60 bilhões em emendas parlamentares tem certamente capacidade de alocar 8 bilhões para a construção da terceira via da rodovia dos Imigrantes. Somos a 8ª economia do mundo com uma arrecadação tributária extremamente relevante e não podemos nos resignar a abrir mão do crescimento econômico pela suposta incapacidade de alocar recursos para a ampliação e melhoria de nossa infraestrutura.

Nos próximos meses teremos a oportunidade de levar às equipes que trabalham na formulação do programa econômico da próxima gestão do nosso Executivo, quer o candidato incumbente quanto os demais, a mensagem que o setor portuário nacional demanda a retomada das obras de infraestrutura dos acessos aos principais portos do país, que é tema de maior urgência para a melhoria da produtividade do nosso transporte e a eliminação de custos absolutamente evitáveis que se agregam em nossos produtos devido à infraestrutura deficiente.

Caio Morel

Presidente Executivo da ABRATEC

Publicado originalmente no portal A Tribuna

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